
Cabedelo depois do vendaval: o peso da transição e os desafios de Edvaldo Neto
A posse de Edvaldo Neto como prefeito interino de Cabedelo ocorre em um dos momentos mais delicados da história política recente do município. A confirmação, pelo Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba, da cassação de André Coutinho não encerra apenas um processo eleitoral. Ela escancara uma crise institucional marcada por suspeitas de crimes, corrupção, distorções no processo democrático e uma profunda instabilidade política que ainda ecoa na cidade.
Não se trata de uma transição administrativa comum. Cabedelo chega a este novo capítulo após um vendaval que deixou desconfiança, desgaste e insegurança sobre o funcionamento do poder público.
Nesse contexto, o discurso de Edvaldo Neto chama atenção mais pelo tom do que pelas promessas. Ao recorrer às próprias raízes, à trajetória pessoal construída na cidade e à defesa de que Cabedelo volte a pertencer aos cabedelenses, o prefeito interino tenta se apresentar como alguém que emerge do cotidiano local, não como um nome imposto pelas circunstâncias judiciais.
É uma narrativa que encontra eco em uma cidade onde, historicamente, muitos filhos da terra precisaram sair para buscar oportunidades. Mas discurso, neste momento, é apenas o ponto de partida. A realidade exige mais do que simbolismo.
Edvaldo assume a Prefeitura com a responsabilidade de administrar um município politicamente traumatizado, cansado de escândalos e descrente da classe política. A promessa de diálogo, de ausência de perseguições e de rejeição ao revanchismo é necessária para reduzir a tensão institucional. Cabedelo não suporta mais disputas internas que paralisem a gestão. Ainda assim, pacificação não pode significar omissão, nem estabilidade pode ser confundida com complacência.
O desafio central do prefeito interino será equilibrar continuidade administrativa, correção de rumos e governabilidade. Isso sem transformar o cargo em palanque, mas também sem reduzi-lo a uma função meramente protocolar.
Ao sinalizar que mudanças pontuais ocorrerão, ao mesmo tempo em que tranquiliza servidores e reforça o respeito às instituições, Edvaldo tenta caminhar sobre uma linha estreita. A grande questão é se essa cautela permitirá enfrentar práticas que contribuíram para a crise ou se servirá apenas para manter tudo funcionando exatamente como antes.
Outro ponto sensível será a relação com a Câmara Municipal. O discurso em defesa do debate, da divergência e da liberdade de voto é coerente com o momento democrático. Na prática, porém, o Legislativo também será espaço de cobrança, pressão e fiscalização. A ausência de unanimidade não é um problema. O risco está em usar o diálogo como justificativa para adiar decisões difíceis.
Edvaldo Neto não chega como salvador, nem deve ser tratado como vilão. Assume como gestor interino em um cenário excepcional. Seu desempenho não será medido por grandes anúncios ou obras vistosas, mas pela capacidade de devolver previsibilidade, confiança mínima e funcionamento institucional a uma cidade abalada.
O pior da crise pode ter passado, mas os efeitos ainda estão presentes. Caberá ao prefeito interino decidir se seu papel será apenas administrar os escombros ou iniciar, mesmo com limitações, um processo real de reconstrução institucional. O tempo, curto e implacável, dará a resposta.

