ELE ERA SÁDICO, ELA QUERIA DINHEIRO: Promotor do Caso Henry diz que padrasto e mãe de menino são igualmente culpados

Perto de completar sete meses da morte de Henry Borel, de 4 anos, as audiências de instrução e julgamento do caso começam hoje no 2º Tribunal do Júri do Rio de Janeiro com a presença da mãe da criança, Monique Medeiros, e acompanhamento remoto, por vídeo, do padrasto do menino.

Presos desde abril, o ex-vereador Jairo Souza Santos Junior, conhecido como Dr. Jairinho, e a mãe de Henry são acusados de homicídio triplamente qualificado, tortura e coação de testemunhas. A expectativa é de que os acusados esclareçam perguntas ainda sem respostas.

Da parte do Ministério Público do Rio de Janeiro, a estratégia será demonstrar um suposto “padrão de comportamento sádico” de Jairinho.

A qualificadora do crime de Jairinho é o sadismo, a satisfação, o prazer em machucar Henry e outras crianças. Já o motivo da Monique é se beneficiar da vantagem financeira nessa situação.” Fabio Vieira, promotor do caso

Com base em laudos e depoimentos, a polícia e a promotoria dizem que Henry foi espancado até a morte por Jairinho no apartamento do ex-vereador na Barra da Tijuca, enquanto Monique tinha ciência do risco que o filho corria. A criança deu entrada sem vida no Hospital Barra D’Or.

O casal não convenceu a polícia sobre as graves lesões no menino —eles chegaram a dizer que Henry caiu da cama.

Ao longo da investigação, ex-companheiras de Jairinho foram à polícia denunciar agressões contra elas e seus filhos —o ex-vereador também responde criminalmente por tortura contra duas crianças, à época com 3 e 4 anos.

Para a defesa dele, a denúncia é uma “conspiração”. O advogado Braz Sant’Anna diz que o então padrasto de Henry “não teve nada a ver com a morte” e que aconselhou seu cliente a acompanhar a audiência a partir do Complexo Penitenciário de Gericinó. “A presença dele só iria agradar pessoas que querem vê-lo mal.”

Foi uma morte não desejada e imprevisível. Vamos desconstruir essas provas e mostrar que são irregulares.” Braz Sant’Anna, advogado de Jairinho

Já a defesa de Monique afirma que as audiências são uma chance de apresentar oficialmente sua nova versão do caso —a pedagoga rompeu com Jairinho, mas não foi ouvida novamente pela polícia.

Ela precisa e quer falar o que aconteceu. Essa é a primeira vez que ela vai ter essa oportunidade. No primeiro depoimento, ela estava protegendo Jairinho, agora a história vai ser a verdadeiraThiago Minagé, advogado de Monique

O casal começou a namorar em outubro do ano passado. Um mês depois, ela saiu da casa dos pais com o filho em Bangu, na zona oeste, para morar em um condomínio de luxo na Barra da Tijuca. Jairinho conseguiu um cargo para Monique no TCM (Tribunal de Contas do Município), que largou a função de diretora de uma escola com salário de R$ 4.000 e passou a ganhar 11 mil.

Testemunhas-chave não localizadas

A previsão é de que sejam ouvidas hoje 11 testemunhas de acusação —dessas, ao menos cinco não haviam sido encontradas, até ontem, pelo Tribunal de Justiça para receberem a intimação.

Entre as não localizadas, estão a babá Thayná de Oliveira que presenciou agressões contra Henry e alertou a mãe; Ana Carolina Netto, ex de Jairinho que relatou agressões durante o casamento; duas médicas que atenderam Henry na madrugada de 8 de março, e o vice-presidente de operações e relacionamento da Qualicorp e conselheiro no Instituto D’Or de Gestão de Saúde, Pablo dos Santos Meneses, que recebeu pedidos insistentes de Jairinho para que o corpo fosse liberado para sepultamento sem passar pelo IML.

“Se não comparecerem, vamos tomar as medidas cabíveis, com aplicação de multa e eles serão ouvidos em outra audiência”, disse o promotor. A Rede D’Or informou que Pablo Meneses comparecerá à audiência.

Nesta fase do processo, também serão ouvidas testemunhas de defesa e os réus, interrogados. Se o juiz entender que a denúncia foi comprovada, Jairinho e Monique vão a júri popular.

Estou ansioso para falar tudo o que não falei na delegacia, até porque lá era só um boletim de ocorrência para liberar o corpo do meu filho. Tenho muita coisa para registrar, mas estou apreensivo com o sumiço dessas cinco testemunhas.” Leniel Borel, pai de Henry

Perguntas sem respostas

“O que aconteceu naquele apartamento entre 19h30, quando entreguei Henry à mãe, até as 3h50, quando aqueles dois saíram com meu filhinho morto?”, questiona Leniel.

Essa é uma das questões a serem exploradas pela promotoria. Após o rompimento de Jairinho e Monique, são esperadas divergências de versões.

Outra pergunta que virá à tona é por que Monique não afastou Henry de Jairinho após tomar conhecimento das agressões.

No dia 12 de fevereiro, 23 dias antes da morte do menino, a mãe foi avisada pela babá e pelo próprio filho que Jairinho o havia agredido. Na ocasião, ela estava em um salão de beleza e chegou em casa quase três horas depois.

No primeiro depoimento que prestaram, ainda como testemunhas, Monique e Jairinho chegaram e saíram de mãos dadas da delegacia –na ocasião, dividiam o mesmo advogado. Na noite anterior à prisão, eles dormiram juntos na casa da avó do ex-vereador em Bangu.

Dias depois, eles fizeram não só a separação das defesas, mas da parceria entre eles.

Da prisão, Monique escreveu cartas dizendo que vivia um relacionamento abusivo e que tentou se separar várias vezes, mas sempre foi impedida por Jairo.

Por outro lado, o ex-vereador não se manifestou em momento algum desde que foi preso.

Lesões e conversa com babá

Henry sofreu 23 lesões, de acordo com os laudos do IML e da reprodução simulada. Todas as lesões foram “produzidas mediante ação violenta” e aconteceram entre 23h30 e 3h30 de 8 de março, segundo os documentos.

As marcas sugerem “ações contundentes de diversos graus de energia, sendo que as lesões intra-abdominais foram de alta energia”.

 

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Entre as lesões foram constatadas, escoriações, hematomas, hemorragias em três partes da cabeça, infiltrações, contusões nos rins, pulmão e laceração no fígado.

A causa da morte foi hemorragia interna e laceração hepática causada por ação contundente, segundo o laudo da necropsia.

No dia do crime, Henry passou o dia com o pai. Por volta das 19h30, quando foi devolver o menino à mãe, Henry não queria voltar para a casa, chegou no condomínio chorando e vomitou.

A babá de Henry disse à polícia que presenciou ao menos três episódios de agressões ao menino, quase um mês antes de sua morte. Em tempo real, ela contou a Monique que Henry e Jairinho ficaram trancados no dia 12 de fevereiro por alguns minutos em um cômodo com o volume da televisão alto.

Segundo ela, Henry mostrou hematomas após sair do quarto e afirmou ter levado “uma banda” (rasteira) e chutes do padrasto. A criança ainda reclamou de dores no joelho e na cabeça.

Do salão de beleza, Monique e o filho se falaram por vídeo —o menino contou o que aconteceu à mãe. A babá disse não ter visto na ocasião nada de anormal entre o casal.

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